Um passo a passo presunçoso

Um livro de Christopher Vogler, A Jornada do Escritor, baseado na obra de Joseph Campbell, “Herói de Mil Faces”. É “um convite a uma viagem pelos caminhos da escrita”, mas a leitura desse livro não vai transformas ninguém num artista criador. É basicamente uma obra didática e pragmática.

Explica tudo, dá exemplos com filmes que todo mundo conhece, repete sua lição com paciência, faz questionários de recapitulação para testar a compreensão do leitor e sugere exercícios. Segundo o livro, uma boa história é muito mais do que uma boa ideia.
Alerta sobre o resultado adverso da utilização desse modelo. Pode gerar algo entediante e previsível, com clichês e estereótipos descuidados. Ele deve ser usado como uma forma, não uma fórmula.

A obra é subdividia em dois livros. O Livro Um, Mapa da Jornada, é um apanhado geral. O primeiro capítulo faz uma revisão do “Guia Prático” (Herói de Mil Faces) e uma apresentação condensada dos doze estágios da Jornada do Herói, considerando-os um Mapa da Jornada. Os heróis são apresentados ao MUNDO COMUM, onde recebem um CHAMADO À AVENTURA. Primeiro ficam relutantes ou RECUSAM O CHAMADO, mas num ENCONTRO COM O MENTOR são encorajados a fazer a TRAVESSIA DO PRIMEIRO LIMIAR e entram no mundo especial, onde encontram TESTES, ALIADOS E INIMIGOS. Na APROXIMAÇÃO DA CAVERNA OCULTA, cruzam um segundo limiar, onde enfrentam a PROVAÇÃO. Ganham sua RECOMPENSA e são perseguidos no CAMINHO DE VOLTA ao mundo comum. Cruzam então o terceiro limiar, experimentam uma RESSURREIÇÃO e são transformados pela experiência. Chega então o momento do RETORNO COM O ELIXIR, a bênção ou o tesouro que beneficia o mudo comum.

O segundo capítulo é uma introdução aos arquétipos, funções que os personagens desempenham temporariamente para obter certos efeitos numa história. Descreve sete tipos comuns encontrados em todas as histórias: herói, mentor (velho sábio), guardião do limiar, arauto, camaleão, sombra e pícaro.

O Livro Dois, Estágios da Jornada, é um exame mais detalhado dos doze elementos da Jornada do Herói. Ao final de cada capítulo há sugestões para que sua própria exploração prossiga. O epílogo, Recapitulando a Jornada, trata da aventura especial da Jornada do Escritor e de algumas armadilhas que devem ser evitadas pelo caminho. Inclui uma análise dos filmes Titanic, O Rei Leão, Pulp Fiction: Tempo de Violência, Ou Tudo ou Nada e Guerra nas Estrelas.

Todos os heróis, basicamente, têm a mesma história, contada e recontada infinitas vezes, em infinitas variações. Fazem parte de um inconsciente coletivo da humanidade. A maioria dos mitos tem o sinal de verdade psicológica, sendo sempre uma jornada.

A verdade do sucesso ou excelência de uma história não está na obediência a qualquer padrão estabelecido, mas em sua popularidade duradoura e efeito no público. A Jornada do Herói é apenas uma linha-mestra, um ponto de partida.

É clara a valorização do escritor, no livro. O autor chega a comparar esse profissional com os xamãs, “curandeiros feridos”. Dizendo que até mesmo o simples ato físico da escrita é quase sobrenatural, na fronteira com a telepatia.

Se escrever uma história fosse como fazer um bolo, esse livro, definitivamente, seria a receita. Um passo a passo presunçoso.

Deixe um comentário

Arquivado em jornalismo

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s